domingo, 26 de março de 2023

Um blogue ressuscitado (A resurrected blog)

(English below)

A última vez que escrevi neste blog ainda estávamos na primeira década do século XXI. O mundo ainda não tinha tido um Presidente Trump, nem tínhamos passado por uma pandemia. A Europa não tinha uma guerra e não estávamos à beira de mudanças climáticas irreversíveis (embora para lá caminhássemos a passos largos, porque estas coisas não se dão de um momento para o outro). 

Eu também não tinha três filhos e uma posição de professora associada nos EUA. Não tinha vivido no Estado do Indiana e no Estado da Carolina do Norte. Não falava farsi e nem fazia ideia quem era Rumi (sobre Rumi teremos tempo para falar). 

Sobre todas estas mudanças falarei atempadamente e sempre à sombra das minhas leituras. Estamos já a terminar o primeiro quarto do ano de 2023 (até já entrámos na Primavera) e decidi que era hora de ressuscitar este blog. Primeiro porque não encontro blogues literários em que me reconheça (hesitei ao escrever esta palavra...soa pretensiosa, mas é o que este blog é...). Segundo porque muitas destas mudanças que ocorreram na minha vida também alteraram os meus hábitos de leitura (mais pormenores em posts futuros) e me sinto mais equipada para ter coisas a dizer sobre literatura. 

Espero que desse lado esteja alguém interessado e se for o caso, comentem, sugiram, perguntem, e sobretudo: "sejam curiosos e não furiosos".

Boas leituras!


/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\

The last time I wrote on this blog, we were still in the first decade of the 21st century. The world had not yet had a President Trump, nor had we experienced a pandemic. Europe didn't have a war, and we weren't on the verge of irreversible climate change (although we were moving there with great strides, because these things don't happen overnight).

I also didn't have three kids and an associate professor position in the US. I had not lived in the States of Indiana and of North Carolina. I didn't speak Farsi and had no idea who Rumi was (we'll have time to talk about Rumi).

I will speak about all these changes in good time and always be inspired by my readings. We're already finishing the first quarter of 2023 (we're already in Spring), and I decided it was time to resurrect this blog. First, because I can't find literary blogs (I hesitated when writing this word...it sounds pretentious, but that's what this blog is...) where I recognize myself. Second, because many of these changes that occurred in my life also changed my reading habits (more details in future posts), I feel more equipped to have things to say about literature.

I hope that on that side, someone is interested, and if that's the case, comment, suggest, ask, and above all: "be curious and not furious".

Happy readings!


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Poeta da Semana - W. H. Auden

Em memoria de W.H. Auden que faleceu no dia 29 de Setembro de 1973. Correndo o risco de soar tetrica...so podemos desejar alguem, que no nosso funeral possa ter este sentimento.

domingo, 27 de setembro de 2009

T.S. Eliot - Preludes

T.S. Eliot enfrentou uma crise religiosa e espiritual durante a sua juventude. Alguns dos seu poemas, anteriores `a devocao ao crstianismo lidam com pessoas espiritualmente exaustas que existem na cidade moderna e impessoal. A poesia "Preludios" captura as vidas espirituais empobrecidades daqueles que vivem numa cultura decadente, solitaria e sordida. Aqui vos deixo a leitura do proprio T.S. Eliot.


sábado, 26 de setembro de 2009

Poeta da Semana - T.S. Eliot




Se falarmos de Thomas Stern Eliot, talvez poucos associem ao brilhante poeta americano T. S. Eliot. Foi laureado com o premio Nobel da Literatura em 1948 "pela contribuicao extraordinaria e pioneira para a poesia do presente". A sua primeira publicacao notavel, e ainda hoje o seu poema mais conhecido e' "The love song of J. Alfred Prufrock" Esta e' uma obra que retrata a vida interior de um homem de 50 anos, revelando a maturidade e profundidade de um T.S. Eliot ainda muito jovem. Esta poesia e' considerada como uma obra prima do modernismo. Seguidamente, T.S. publicou alguns dos poemas mais conhecidos da lingua inglesa: Gerontion, The Waste Land, The Hollow Men, Ash Wednesday, Olda Possum's Book of Practical Cats and Four Quartets. Apesar de ter uma producao reduzida a sua poesia produziu um impacto que perdura ate' aos dias de hoje.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Bocage - Auto-retrato

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno.

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de hipócritas, e frades.

Eis Bocage, em quem luz algum talento.
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Poeta da Semana - Manuel Maria Bocage

Nascido no dia 15 de Setembro de 1765, há 244 anos, foi possivelmente o maior representante do arcadismo lusitano, movimento literário cuja principal característica é a exaltação da Natureza e de tudo que lhe diz respeito. Integrou a Nova Arcádia em 1790, onde adoptou o pseudónimo Elmano Sadino. Mas passado pouco tempo escrevia já ferozes sátiras contra os confrades. Dominava então Lisboa o Intendente da Polícia, Pina Manique, que decidiu pôr ordem na cidade, tendo em 1797 dado ordem de prisão a Bocage por ser “desordenado nos costumes”. Ficou preso no calabouço da Inquisição, no Rossio, tendo ido depois para o Real Hospício das Necessidades. Durante este longo período de detenção, Bocage mudou o seu comportamento e começou a trabalhar seriamente como redactor e tradutor.A partir de 1801 e até à morte por aneurisma, viveu em casa por ele arrendada no Bairro Alto, naquela que é hoje o n.º 25 da travessa André Valente.

É-lhe atribuída a frase: "quem tem c ú tem medo, e eu também posso errar" a propósito das poesias-canções que dedicou ao vice-rei do Rio de Janeiro com a intenção de cair nas suas boas graças e ali permanecer. Tendo vindo a descobrir a aversão a elogios do vice-rei, prosseguiu a sua viagem para a Índia, não sem antes exprimir a frase acima citada.

domingo, 30 de agosto de 2009

Nocturne - Eino Leino - a letra

I hear the evening cornbird calling.
Moonlight floods the fields of tasseled grain.
Wood smoke, drifting veils the distant valleys.
Summer evening's joy is here for me.
I'm not happy yet no sorrow shakes me,
but the dark woods stillness I would welcome.
Rosy clouds through which the day is falling,
sleepy breezes from the blue gray mountains,
shodows on the water, meadow flowers...
out of these my heart's own song I'll make!
I will sing it, summer hay-sweet maiden,
sing to you my deep serenity,
my own faith that sounds a swelling music,
oak-leaf garland ever fresh and green.
I'll no longer chase the will-o-wisp.
Happiness is here in my own keeping.
Day by day, life's circle narrows, closes.
Time stands still now ... weather cocks all sleeping.
Here before me lies a shadowy way
leading to a strange, an unknown place.

Nocturne - Eino Leino

Mesmo não percebendo a letra, fica-se com os estado de alma finlandês (uma homenagem a uma cara amiga).

sábado, 29 de agosto de 2009

Poeta da Semana - Eino Leino

Eino Leino nasceu em 1878 na Finlândia. É considerado como um dos pioneiros da literatura poética finlandesa. A sua poesia combina elementos modernos e tradicionais finlandeses, sendo que o seu estilo se aproxima das canções populares. A natureza, o amor e o desespero são temas frequentes no trabalho de Leino. Ele é amado e estudado em toda a Finlândia contemporânea.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O Sapo - Paul Muldoon

Vem à mente como uma outra pequena
convulsão
entre os escombros.
O seu olho corresponde exatamente à bolha
ao nível do meu espírito.
Eu larguei martelo e formão
e vou levá-lo na espátula.

Toda a população da Irlanda
brota de um par deixado de repouso
durante a noite numa lagoa
nos jardins do Trinity College,
duas garrafas de vinho ali deixadas para refrigerar
após o Acto de União.

Há, certamente, nessa história
uma moral. A moral de nossos tempos.
E se eu o colocar na minha cabeça
e o apertar para fora dele,
como o suco de limão espremido na hora,
ou um sorvete de limão?

sábado, 20 de junho de 2009

Poeta da Semana - Paul Muldoon

Nascido no dia 20 de Junho de 1951, Paul Muldoon é um galardoado do prémio Pulitzer. Originário da Irlanda do norte, trabalha como investigador e professor na Universidade de Princeton. A sua poesia é conhecida pela sua dificuldade, alusão, uso casual de palavras obscuras ou arcaicas, duplas intenções e significados escondidos. Caracteriza-se ainda por uma grande habilidade métrica e rima descuidada.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Iscinta e scalza, con le trezze avvolte - Giovanni Boccaccio

Iscinta e scalza, con le trezze avvolte,
e d'uno scoglio in altro trapassando,
conche marine da quelli spiccando,
giva la donna mia con le altre molte.
E l'onde, quasi in sé tutte raccolte,
con picciol moto i bianchi piè bagnando,
innanzi si spingevan mormorandoe
ritraènsi iterando le volte.
E se tal volta, forse di bagnarsi
temendo, i vestimenti in su tirava,
sì ch'io vedeo più della gamba schiuso,
oh, quali avria veduto allora farsi,
chi rimirato avesse dov'io stava,
gli occhi mia vaghi di mirar più suso!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Poeta da Semana - Giovanni Boccaccio

Giovanni Boccaccio, nascido há 696 anos, no dia 16 de Junho, em Florença foi um autor e poeta italiano. Foi um importante humanista, autor de um número notável de obras, incluindo o Decamerão, uma obra visonária para a época, que tenho em casa para ler, mas ainda não tive coragem. Foi um estudioso da Comédia de Dante, ou como a denominava Boccaccio, A Divina Comédia, nome que a imortalizou.

sábado, 13 de junho de 2009

Aniversário de Fernando Pessoa

Hoje comemora-se o aniversário do nosso muito querido e muito grande pessoa, nascido há 122 anos, no dia de Santo António, em Lisboa. Em homenagem, aqui fica:

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Vou sobre o Oceano (o luar, de doce, enleva!) - António Nobre

Vou sobre o Oceano (o luar, de doce, enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terra da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás.

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o Vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz.

Ó Lusitânia que te vais à vela!Adeus!
que eu parto (rezarei por ela)
Na minha Nau Catrineta, adeus!

Paquete, meu Paquete, anda ligeiro,
Sobe depressa à gávea, Marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!

Antonio Nobre, in Só

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A Poezia do Outomno - António Nobre

Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
São como estradas liquidas,
e as estradas Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O chale pedem a quem vae passando...
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
As lavandiscas noivam piando, piando!

O orvalho cae do céu, como um unguento.
Abrem as boccas, aparando-o, os goivos...
E a larangeira, aos repellões do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cae... E, á falta d'agoa, rega
O val sem fruto, a terra arida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

Tardes de outomno! ó tardes de novena!
Outubro! Mez de Maio, na lareira!
Tardes... Lá vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos céus, a eterna freira!

terça-feira, 9 de junho de 2009

Poeta da Semana - António Nobre



António Nobre, poeta nascido em 1867, insere-se numa estética decadentista/simbolista, renovando o romantismo de Garrett e anunciando o modernismo de Sá-Carneiro. É figura dominante do grupo Boémia Nova. A tuberculose, que cedo o atacou, forçou-o a uma vida de peregrinação pela Suiça, Inglaterra e Madeira, acabando por morrer precocemente, em 1900, o que não impediu que o nome de António Nobre figura entre os grandes poetas da literatura portuguesa de todos os tempos, levando Fernando Pessoa a afirmar: "Ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas".

terça-feira, 2 de junho de 2009

LIvro para o mês de Junho de 2009

Apresentamos o livro para o mês de Junho de 2009.

Blink - Decidir num piscar de olhos

No espírito académico em que me encontro, vão perdoar-me por me afastar ligeiramente da literatura e debruçar-me sobre um livro de divulgação ciêntífica. Malcolm Gladwell é um jornalista britânico criado no Canadá, e que actualmente vive em Nova Iorque. É colunista da "The New Yorker" desde 1996. Em 2005, foi nomeado como uma das 100 pessoas mais influentes pela Time Maazine. É o autor de "The Tipping Point: How Little Things Make a Big Difference," (2000), "Blink: The Power of Thinking Without Thinking" (2005), "Outliers: a story of sucess" (2009), todos campeões de vendas d0 New York Times.

Blink! é um livro sobre as escolhas que parecem ser feitas instantaneamente — num piscar de olhos —, mas que realmente não são tão simples como parecem. Por que é que certas pessoas são decisoras brilhantes e outras se mostram sistematicamente inaptas para decidir? Por que é que há pessoas quenseguem os seus instintos e vencem, enquanto outras tropeçam sempre em erros de avaliação? Como é que será que o nosso cérebro realmente trabalha — no escritório, na sala de aula, na cozinha e no quarto? E por que é que, com frequência, as melhores decisões são aquelas que não se conseguem explicar? Baseado nas descobertas neurológicas e psicológicas mais recentes, e escrito de uma forma rigorosa e brilhante, Blink! muda o modo como compreendemos todas as nossas decisões.

Boas Leituras!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Bashô Matsuo - Poeta da Semana

Relvas de verão
sob as quais os guerreiros
sonham.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Bashô Matsuo - Poeta da Semana

A poesia haiku é simples e breve. Muitas vezes evoca a natureza para exprimir estados de alma. Introspectiva, confunde-se com uma simples pintura, tornando-se uma forma de arte quase primária.

Este caminho
Ninguém já o percorre,
Salvo o crepúsculo.

De que árvore florida
Chega? Não sei.
Mas é seu perfume.

Bashô Matsuo